Revista Bimensal 
Edição 11 - Outubro 05
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SOCIODRAMA E EDUCAÇÃO

 

Maria Margarida Barros
Professora e Formadora


"...e quando me tiveres encontrado
eu arrancarei os teus olhos
e os colocarei no lugar do meus,
e tu arrancarás os meus olhos
e os colocarás no lugar dos teus.
Assim, eu passarei a ver 
com os teus olhos,
e tu a ver-me, com os meus."

Jacob Moreno


Reflectir sobre educação e cidadania implica clarificar a visão do Ser Humano, uma vez que é ele o centro da educação e da cidadania, o actor social, que age segundo os valores essenciais da vida em sociedade, no respeito pelo outro, na aceitação das diferenças e no assumir de responsabilidades.

O Ser Humano é um ser em desenvolvimento constituído pela componente física, emocional, mental e intuitiva. Nesta visão se concebe a educação integral, com quatro pilares assim enunciados pela UNESCO: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. 

A abordagem do conhecimento em educação integral é transdisciplinar. A transdisciplinaridade foi pela primeira pensada por Jean Piaget e desenvolvida após a Declaração de Veneza, em 1986 e engloba o conhecimento das múltiplas disciplinas, desde as disciplinas humanas às científicas, o que as une e o que está para além delas.
Aprender verdadeiramente é o acto de descobrir, saborear e integrar a descoberta, para a transformar em sabedoria.

O nosso sistema de ensino reconhece a necessidade de educação para a cidadania, definindo competências de aprendizagem social e criando uma disciplina no ensino básico.
Como fazer educação para a cidadania? Que metodologia?

Os métodos activos são os indicados, em especial o sociodrama pedagógico.

O Sociodrama, socius que significa sócio e drama que significa acção, acção em benefício de outra pessoa. As técnicas de sociodrama fundamentam-se no psicodrama, psique que significa alma, o método que entra na verdade da alma através da acção, criado por Jacob Levy Moreno, o homem que trouxe o riso à psiquiatria, nos anos trinta do século passado. 

A acção, em sociodrama, centra-se no “emergente do grupo”, que é o tema mais relevante para o grupo ou as próprias relações interpessoais no aqui-e-agora, trabalhando-o com técnicas dramáticas, vivenciando todos os participantes do grupo uma experiência, que resulta em aprendizagem individual e do grupo. À semelhança do teatro, os elementos do grupo são os protagonistas e o dinamizador é o director de sociodrama, que pode fazer equipa com os egos auxiliares. As várias fases do sociodrama centram-se na dramatização, no que é vivido na acção. 

O Psicodrama é mais terapêutico e o sociodrama mais educativo. 

O sociodrama pode ser aplicado em quase todas as situações grupais desde casais, famílias, grupos profissionais, instituições e até comunidades.

O sociodrama pedagógico aplica-se a professores e a alunos, permite estudar o funcionamento de um grupo, trabalhar a sua coesão, sensibilizar para questões do meio envolvente e garantir a assimilação/acomodação, conceitos de Piaget, dos conteúdos cognitivos.

O Sociodrama facilita a expressão e integração de sentimentos, bem como ter novas percepções, treinar papéis, motivar, reflectir, treinar a empatia, a espontaneidade e a criatividade. 

Para Moreno, que via o Ser Humano como um ser em relação, " ser é ser com o outro", no qual o crescimento depende das interacções do indivíduo e do grupo que influenciam a sua personalidade, sendo o encontro com o outro e a espontaneidade o ponto central da sua teoria. A espontaneidade é a capacidade de dar respostas criativas, adequadas às situações e problemas que a vida apresenta. Esta ideia de Moreno está bem em sintonia com as recentes investigações de António Damásio, quando afirma que, quanto mais estímulos houver nas zonas de criatividade do cérebro, mais estas potencializam situações criativas. 

O Sociodrama pedagógico é um método por excelência para a educação integral e um dos exemplos é a Formação em Educação para a Paz, Conjunto de Seminários "A Arte de Viver a Vida" criada pelo Professor Pierre Weil , reconhecida pela 26ª Assembleia da Unesco como novo método holístico de Educação para a Paz e que ganhou os Prémios de Educação para a Paz da Unesco em 2000 e 2002. O Professor Pierre Weil foi discípulo de Jean Piaget e Jacob Moreno, é Psicólogo, Pedagogo, Escritor, Reitor da Universidade Holística Internacional e Consultor da Unesco em Educação para a Paz. 

A Educação para a Paz é uma visão relativamente recente e acompanha os conceitos de cultura de guerra e de Cultura de Paz. A Cultura de Paz é o grande objectivo de uma educação para a cidadania.

Está neste momento a decorrer a Década 2000-2010, de Educação para uma Cultura de Paz e Não-violência, em Benefício das Crianças do Mundo, dinamizada pela Unesco, a partir do Manifesto 2000, para uma Cultura de Paz. Este Manifesto, cujos pontos são: Respeitar todas as vidas; Rejeitar a violência; Partilhar a generosidade; Ouvir para compreender; Preservar o planeta e Reinventar a solidariedade, resultou do Encontro de personalidades e organizações que no final do século passado trabalhavam no sentido de estabelecer a Paz a nível mundial.

Os pontos do Manifesto 2000 relacionam-se com a estrutura da formação "A Arte de Viver a Vida", que se divide em três ecologias, a pessoal , a social e a ambiental. Esta formação é uma Pérola Pedagógica pela integração de aprendizagens e transformação pessoal que proporciona. 

"A Arte de Viver a Vida" é ministrada desde 1987 no Brasil, em empresas, grupos de risco, em formação de adultos, formação de professores e em escolas, com alunos de todas as idades. Na Grã-Bretanha é ministrada há cerca de dez anos em escolas e na formação de adultos e professores. Em França, Bélgica, Israel e Estados Unidos é ministrada para adultos há cerca de quatro anos e começa agora a ser solicitada por escolas do ensino secundário. Em Portugal existe esta formação desde 1998, para adultos e existem projectos de implementação em escolas e outras instituições.

O sucesso da sua utilização deve-se à associação brilhante da abordagem transdisciplinar com a metodologia sociodramática. 

Esta metodologia permite resgatar o sentido das palavras e o conteúdo das formas, permite relacionar os conceitos com a experiência de vida, desenvolvendo, diz Moreno, "um conhecimento íntimo e activo das coisas e um forte pendor para o crescimento". Para Moreno, antes da análise há o contacto activo, a relação, a libertação da imaginação e a análise vem depois, o que permite, sabemos hoje, a integração do conhecimento pelos dois hemisférios cerebrais.

A formação em Sociodrama faz-se, em Portugal, na Sociedade Portuguesa de Psicodrama.
Nos seguintes sites encontram-se informações de aprofundamento dos temas tratados neste artigo: www.sppsicodrama.com; www.pierreweil.pro.br e www.unesco.org.

O Sociodrama e o Sociodrama pedagógico podem ser utilizados em todos os projectos educativos das escolas, favorecendo novas dinâmicas, novas aprendizagens, criando uma pedagogia de Amor e Alegria. 

A Educação Integral para a Cidadania desenvolve um Ser Humano que age em sintonia consigo próprio, com a sociedade e todo o meio envolvente, sem "conservas culturais", conceito moreniano, fazendo sair da sociedade a normose, a patologia da normalidade.

 


*Professora / Formadora / Formadora-Facilitadora de “A Arte de Viver a Vida” / Sociodramatista, em formação / Mensageira Reconhecida pela UNESCO do Manifesto 2000