Revista Bimensal 
Edição 15 - Junho 06
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O que é a leitura?
 

 Joana Campos
Professora do Ensino Secundário



A leitura, embora seja um acto complexo, simultaneamente linguístico, cognitivo, social e afectivo, constitui uma das ferramentas mais importantes para o desenvolvimento do indivíduo enquanto ser cultural, ao confrontá-lo com discursos escritos diversos, e social porque lhe oferece a possibilidade de o fazer interagir com tudo o que o rodeia.

Parece não haver dúvidas, após as investigações dos anos setenta e oitenta, que ler é compreender mentalmente um texto. Aprender a ler não é um processo natural e espontâneo como o é a aquisição da língua falada (Morais, J.). A leitura não pode ser apenas a descoberta do texto. Não haverá mais e melhores leitores pelo facto de existir uma boa biblioteca na Escola ainda que uma boa biblioteca convide a tocar os livros, folheá-los, amá-los.

O acto de ler pressupõe, por parte do leitor, um conjunto de capacidades, algumas delas características da própria leitura, outras que intervêm também na linguagem oral. Embora se tenha consciência das diferenças entre a linguagem oral e a escrita, há, contudo, aspectos comuns que as afectam, como sejam a fonologia, a sintaxe e a semântica. Assim, à medida que a criança desenvolve o domínio da língua, também se vai apercebendo das suas regras de funcionamento e adquire conhecimentos sobre a própria língua que vai interiorizando. Há-se haver um momento em que esses conhecimentos se devam tornar explícitos (conhecimento reflexivo da língua). Pensa-se que, quanto mais competente for uma criança ao nível da oralidade, mais capacitada estará para estabelecer a relação entre as linguagens oral e escrita e compreender o sentido do texto escrito.1

Saber ler significa informar-se, progredir e adaptar-se para agir e reagir. Ler implica avanços e recuos, antecipar sentidos possíveis, inferir sentidos implícitos, colocar hipóteses, questionar o texto, mobilizando e transferindo saberes e competências anteriormente adquiridos. De acordo com Rebelo, J.A.S., os modelos interactivos “pressupõem que, durante a leitura, todas as fontes de informação actuam simultaneamente: tanto a identificação, o reconhecimento de letras, a sua tradução em sons, como a compreensão, formulação de hipóteses e conjecturas para descobrir o seu significado estão intimamente implicados no processo, numa relação de interdependência.”
De acordo com a corrente psicolinguística, a compreensão é o produto constante da interacção das várias habilidades. Esta teoria defende que não haverá compreensão quando não existirem, por parte do leitor, conhecimentos que possam ser mobilizados, de forma a fazê-los interagir com os novos dados fornecidos pelo texto.

Segundo Rosenblatt, e de acordo com a sua teoria transaccional da leitura, o texto não é estático. É interpretado através das lentes das experiências que o leitor traz no momento em que encontra o texto. Entretanto, além de ler o texto, o leitor submete-o também a uma transformação que, por sua vez, afecta a maneira de interagir com a passagem seguinte. É um ciclo sem fim da interacção do leitor com o texto.

Apreender o sentido do texto é dialogar consigo mesmo, com as suas concepções, sentimentos e emoções, é dialogar com o universo textual, quer ele reflicta um mundo real ou um mundo imaginário, e adoptar pontos de vista críticos que, não sendo capacidades inatas, se aprendem e desenvolvem ao fazer interagir texto e leitor, construindo, assim, leitores activos, curiosos, implicados e críticos, ou seja, leitores competentes. Em suma, podemos dizer que o papel do leitor consiste em tornar visível o que a escrita sugere por alusões e sombras.

Mais do que nunca, podemos dizer que a leitura é o centro da actividade escolar. Daí que se considere, em grande medida, que muito do insucesso escolar se deva, frequentemente, à falta de desenvolvimento da competência de leitura. A tarefa de estudar (todos os conteúdos de todas as disciplinas) passa, impreterivelmente, por descodificar e compreender os textos que contêm todo o conhecimento que o aluno deve adquirir. Quanto mais competente for como leitor, mais possibilidades tem de sucesso.

Desde a década de oitenta, os avanços da tecnologia têm vindo, progressivamente, a facultar-nos uma forma rápida de obter informação on line para o que é preciso um nível superior de leitura, ou seja rapidez de processamento da informação, profundidade de compreensão e sentido crítico, seleccionando apenas o que é importante para a resolução de uma determinada situação-problema.

Se efectivamente temos mais recursos ao nosso alcance o que deveria ter produzido mais e melhores leitores, a realidade a que temos vindo a assistir é bem diferente. Muitos dos nossos jovens terminaram a escolaridade obrigatória a ler pouco e mal e, tornados adultos, consomem pouca leitura, educando as novas gerações, também elas, arredadas do hábito de ler/informar-se.

Se a investigação científica parece revelar que as nossas crianças, ao iniciar a escolaridade básica, possuem níveis de desempenho oral idênticos aos de outras crianças com uma língua materna diferente do Português, como justificar resultados inferiores aos desejáveis no que se refere à competência da leitura2 para os que ingressam no mercado de trabalho ou no ensino secundário?

Que resposta dá a Escola? E a família? E o Ministério da Educação?

Há aqui um jogo do “empurra” mas conclui-se sempre que o aluno “não sabe” sem que ninguém se interrogue por que não sabe. Qual o momento, a situação, a razão que impediram essa aprendizagem? Serão os meninos de hoje menos inteligentes que antigamente?

O facto é que temos maus leitores para a vida. E um mau leitor, um leitor que lê “com o dedo” fica tão preso às grilhetas do texto que não pode fruir do prazer de ler nem pode retirar toda a informação que o texto lhe fornece.

Numa sociedade cada vez mais apoiada na obtenção rápida de informação, os maus leitores são confrontados com grandes dificuldades – falta de compreensão da informação que exige recurso a conhecimentos exteriores ao texto e deficiente análise do conteúdo do texto, o que vai comprometer o acesso à informação e à construção do conhecimento. E tudo isto é uma bola de neve. Da próxima vez em que for necessário mobilizar e transferir conhecimentos para compreender outro texto sobre a mesma temática, estará, de novo, em desvantagem em relação aos leitores fluentes.

O que constatamos é que, com tanta informação disponível para todos, nem todos conseguem aceder-lhe do mesmo modo, nem tão pouco usufruir dos mesmos benefícios. E isto faz toda a diferença. Aprende-se a ler por obrigação enquanto se frequenta a Escola mas não se cria o prazer de folhear um livro e lê-lo por gosto, quer para consolidar as aprendizagens, quer para adquirir novos conhecimentos. Ler melhor significa também falar e escrever melhor nas mais diversas situações de comunicação o que implica ser cidadão de pleno direito, activo e crítico, capaz de construir sentidos e de identificar as contradições e manipulações que as mensagens podem conter. “É através da leitura que somos confrontados com ideias e mundividências que enriquecem o nosso património cultural e nos ajudam a reflectir e a consolidar opiniões. E é igualmente no acto de ler que, por vezes, encontramos um espaço lúdico e de evasão, que abre as portas a uma dimensão tão importante, no homem, como é a da imaginação e criatividade.” 3
 

 

1) J. Morais, Observatoire National de Lecture.

2) O deficiente nível de desempenho na competência de leitura gera resultado idêntico na competência da escrita.

3) Elvira Moreira dos Santos, Hábitos de Leitura em Crianças e Adolescentes, pg.68

 

 

Bibliografia

Bentolila, A. (1991). “De l’oral à l’entrée dans l’écrit “. Les entretiens Nathan. Lecture. Actes I.

Bentolila, A. (1996) “Compreender a dizer para melhor compreender a ler”, Observatoire National de Lecture.

Freitas, E. & Santos, M.L. (1992). Hábitos de Leitura em Portugal. Lisboa: Publicações D.Quixote.

Giasson, J. A. (2004). Compreensão na Leitura, Porto: Edições ASA.


Morais, J.(1997). A Arte de Ler – Psicologia Cognitiva da Leitura. Lisboa : Edições Cosmos.

Lomas, C. (2003). O Valor das Palavras (I) – Falar, Ler e Escrever nas Aulas. Porto: Adições ASA.

Martins, M.A. & Niza, I. (1998). Psicologia da Aprendizagem da Linguagem Escrita. Lisboa: Universidade Aberta.

Rebelo, J.A.S. (2001) Dificuldades da Leitura e da Escrita em Alunos do Ensino Básico. Porto: Edições ASA.

Rosenblatt, L. M. (1983). Literature as Exploration (6ª ed.). New York: Modern Language Association of America.

Santos, E.M. (2000). Hábitos de Leitura em Crianças e Adolescentes. Lisboa: Quarteto Editora.

Sim-Sim, I. (1997), Avaliação da Linguagem Oral: Um Contributo para o Conhecimento do Desenvolvimento Linguístico das Crianças Portuguesas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Sim-Sim, I. (1994). De que é que falamos quando falamos de leitura. Noésis, 7 (2), 131-143.

Sim-Sim, I. (2006). Ler e Ensinar a Ler. Porto: Edições ASA.

Viana, F.L.& Teixeira, M.M. (2002). Aprender a Ler: Da Aprendizagem Informal à Aprendizagem Formal. Porto: Edições ASA.