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O que é
a leitura?
Professora do Ensino Secundário
A leitura, embora seja
um acto complexo, simultaneamente linguístico, cognitivo,
social e afectivo, constitui uma das ferramentas mais
importantes para o desenvolvimento do indivíduo enquanto ser
cultural, ao confrontá-lo com discursos escritos diversos, e
social porque lhe oferece a possibilidade de o fazer
interagir com tudo o que o rodeia.
Parece não haver dúvidas, após as investigações dos
anos setenta e oitenta, que ler é compreender mentalmente um
texto. Aprender a ler não é um processo natural e espontâneo
como o é a aquisição da língua falada (Morais, J.). A
leitura não pode ser apenas a descoberta do texto. Não
haverá mais e melhores leitores pelo facto de existir uma
boa biblioteca na Escola ainda que uma boa biblioteca
convide a tocar os livros, folheá-los, amá-los.
O acto de ler pressupõe, por parte do leitor, um
conjunto de capacidades, algumas delas características da
própria leitura, outras que intervêm também na linguagem
oral. Embora se tenha consciência das diferenças entre a
linguagem oral e a escrita, há, contudo, aspectos comuns que
as afectam, como sejam a fonologia, a sintaxe e a semântica.
Assim, à medida que a criança desenvolve o domínio da
língua, também se vai apercebendo das suas regras de
funcionamento e adquire conhecimentos sobre a própria língua
que vai interiorizando. Há-se haver um momento em que esses
conhecimentos se devam tornar explícitos (conhecimento
reflexivo da língua). Pensa-se que, quanto mais competente
for uma criança ao nível da oralidade, mais capacitada
estará para estabelecer a relação entre as linguagens oral e
escrita e compreender o sentido do texto escrito.1
Saber ler significa informar-se, progredir e
adaptar-se para agir e reagir. Ler implica avanços e recuos,
antecipar sentidos possíveis, inferir sentidos implícitos,
colocar hipóteses, questionar o texto, mobilizando e
transferindo saberes e competências anteriormente
adquiridos. De acordo com Rebelo, J.A.S., os modelos
interactivos “pressupõem que, durante a leitura, todas as
fontes de informação actuam simultaneamente: tanto a
identificação, o reconhecimento de letras, a sua tradução em
sons, como a compreensão, formulação de hipóteses e
conjecturas para descobrir o seu significado estão
intimamente implicados no processo, numa relação de
interdependência.”
De acordo com a corrente psicolinguística, a compreensão é o
produto constante da interacção das várias habilidades. Esta
teoria defende que não haverá compreensão quando não
existirem, por parte do leitor, conhecimentos que possam ser
mobilizados, de forma a fazê-los interagir com os novos
dados fornecidos pelo texto.
Segundo Rosenblatt, e de acordo com a sua teoria
transaccional da leitura, o texto não é estático. É
interpretado através das lentes das experiências que o
leitor traz no momento em que encontra o texto. Entretanto,
além de ler o texto, o leitor submete-o também a uma
transformação que, por sua vez, afecta a maneira de
interagir com a passagem seguinte. É um ciclo sem fim da
interacção do leitor com o texto.
Apreender o sentido do texto é dialogar consigo
mesmo, com as suas concepções, sentimentos e emoções, é
dialogar com o universo textual, quer ele reflicta um mundo
real ou um mundo imaginário, e adoptar pontos de vista
críticos que, não sendo capacidades inatas, se aprendem e
desenvolvem ao fazer interagir texto e leitor, construindo,
assim, leitores activos, curiosos, implicados e críticos, ou
seja, leitores competentes. Em suma, podemos dizer que o
papel do leitor consiste em tornar visível o que a escrita
sugere por alusões e sombras.
Mais do que nunca, podemos dizer que a leitura é o
centro da actividade escolar. Daí que se considere, em
grande medida, que muito do insucesso escolar se deva,
frequentemente, à falta de desenvolvimento da competência de
leitura. A tarefa de estudar (todos os conteúdos de todas as
disciplinas) passa, impreterivelmente, por descodificar e
compreender os textos que contêm todo o conhecimento que o
aluno deve adquirir. Quanto mais competente for como leitor,
mais possibilidades tem de sucesso.
Desde a década de oitenta, os avanços da tecnologia
têm vindo, progressivamente, a facultar-nos uma forma rápida
de obter informação on line para o que é preciso um nível
superior de leitura, ou seja rapidez de processamento da
informação, profundidade de compreensão e sentido crítico,
seleccionando apenas o que é importante para a resolução de
uma determinada situação-problema.
Se efectivamente temos mais recursos ao nosso alcance
o que deveria ter produzido mais e melhores leitores, a
realidade a que temos vindo a assistir é bem diferente.
Muitos dos nossos jovens terminaram a escolaridade
obrigatória a ler pouco e mal e, tornados adultos, consomem
pouca leitura, educando as novas gerações, também elas,
arredadas do hábito de ler/informar-se.
Se a investigação científica parece revelar que as
nossas crianças, ao iniciar a escolaridade básica, possuem
níveis de desempenho oral idênticos aos de outras crianças
com uma língua materna diferente do Português, como
justificar resultados inferiores aos desejáveis no que se
refere à competência da leitura2
para os que ingressam no mercado de trabalho ou no ensino
secundário?
Que resposta dá a Escola? E a família? E o Ministério
da Educação?
Há aqui um jogo do “empurra” mas conclui-se sempre
que o aluno “não sabe” sem que ninguém se interrogue por que
não sabe. Qual o momento, a situação, a razão que impediram
essa aprendizagem? Serão os meninos de hoje menos
inteligentes que antigamente?
O facto é que temos maus leitores para a vida. E um
mau leitor, um leitor que lê “com o dedo” fica tão preso às
grilhetas do texto que não pode fruir do prazer de ler nem
pode retirar toda a informação que o texto lhe fornece.
Numa sociedade cada vez mais apoiada na obtenção
rápida de informação, os maus leitores são confrontados com
grandes dificuldades – falta de compreensão da informação
que exige recurso a conhecimentos exteriores ao texto e
deficiente análise do conteúdo do texto, o que vai
comprometer o acesso à informação e à construção do
conhecimento. E tudo isto é uma bola de neve. Da próxima vez
em que for necessário mobilizar e transferir conhecimentos
para compreender outro texto sobre a mesma temática, estará,
de novo, em desvantagem em relação aos leitores fluentes.
O que constatamos é que, com tanta informação
disponível para todos, nem todos conseguem aceder-lhe do
mesmo modo, nem tão pouco usufruir dos mesmos benefícios. E
isto faz toda a diferença. Aprende-se a ler por obrigação
enquanto se frequenta a Escola mas não se cria o prazer de
folhear um livro e lê-lo por gosto, quer para consolidar as
aprendizagens, quer para adquirir novos conhecimentos. Ler
melhor significa também falar e escrever melhor nas mais
diversas situações de comunicação o que implica ser cidadão
de pleno direito, activo e crítico, capaz de construir
sentidos e de identificar as contradições e manipulações que
as mensagens podem conter. “É através da leitura que somos
confrontados com ideias e mundividências que enriquecem o
nosso património cultural e nos ajudam a reflectir e a
consolidar opiniões. E é igualmente no acto de ler que, por
vezes, encontramos um espaço lúdico e de evasão, que abre as
portas a uma dimensão tão importante, no homem, como é a da
imaginação e criatividade.”
3
1) J. Morais,
Observatoire National de Lecture.
2) O
deficiente nível de desempenho na competência de leitura
gera resultado idêntico na competência da escrita.
3) Elvira
Moreira dos Santos, Hábitos de Leitura em Crianças e
Adolescentes, pg.68
Bibliografia
Bentolila, A. (1991).
“De l’oral à l’entrée dans l’écrit “. Les entretiens Nathan.
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