Revista Bimensal 
Edição 2 - Jan. 04
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CURRÍCULOS ALTERNATIVOS


Isidro Marques, Margarida Ferreira, Mário Cesário
Professores coordenadores de projectos de
 Currículos Alternativos EB 2/3 da Alembrança


Algumas considerações

Foi certamente intenção de quem impulsionou e fez publicar os normativos legais que consagram os Currículos Alternativos, (C.A.), dotar os "edifício educativo" de condições objectivas que permitissem construir currículos e programas ajustados às características específicas de determinado grupo de alunos.

Mais do que falar em concreto das experiências enriquecedoras que temos tido oportunidade de viver como intervenientes activos com C. A. que aliás seria obviamente interessante, julgamos que neste momento será mais útil uma reflexão sobre, se vale a pena aos profissionais da educação continuarem a apresentar projectos aos serviços centrais ou regionais do Ministério da Educação, visto que nos parece haver algum desinvestimento por parte da tutela nos C.A.

Ao entrarmos no oitavo ano de vigência ou aplicação deste tipo de projectos, que algumas escolas agarraram com entusiasmo e dinamismo, torna-se assaz pertinente, equacionar/avaliar se o produto C.A. responde cabalmente às necessidades das escolas e/ou dos alunos de uma forma geral. Isto é:

  • Contribui para diminuir o abandono escolar? 
  • É o mecanismo mais adequado para o despiste pré-vocacional e futuro encaminhamento para cursos profissionais? 
  • Como meio de inclusão social, é o produto mais adequado para lidar com alunos que se encontram na fronteira da marginalidade? 
  • Permite às escolas lidar com públicos específicos de forma mais adequada? 

Outras questões se podiam levantar, no entanto julgamos que estas são relevantes para se aquilatar da necessidade de dinamizar, ajustar/melhorar, ou deixar cair os C.A. que claramente exigiam e exigem outra atenção, por parte dos serviços centrais do Ministério da Educação. 

Por nós, neste caso, observadores e sujeitos observados, não nos restam dúvidas quanto às respostas para as questões formuladas, no entanto deixamo-las em aberto. 

Seria bom para todos, se os leitores deste texto procurassem dar respostas, ainda que estas sejam meramente exercícios de reflexão

A um observador menos atento pode parecer que o funcionamento de turmas de C.A. se torna dispendioso ao sistema, no entanto julgamos que está por fazer uma avaliação que equacione os custos e os proveitos, se bem que estes dois parâmetros não se podem reduzir ao sentido meramente economocista. 
Arrancar um jovem à frequência de certos ambientes marginais e trazê-lo para a Escola, é um acto que não sabemos contabilizar em termos de euros.

Como surgem os projectos?
Como surgiu o projecto na Escola Básica 2/3 da Alembrança?


Os Alunos e a Escola e o Meio

A Escola Básica 2/3 da Alembrança detectou no ano lectivo 2002/2003 um grande número de jovens em abandono escolar sem terem concluído sequer o 2º ciclo do ensino básico. 

Esta situação de abandono está directamente relacionada com o insucesso escolar repetido e com dificuldades de integração na comunidade escolar revelando os alunos comportamentos que evoluíram quer no sentido da passividade quer no da agressividade. 

Estes dois tipos opostos de comportamentos foram desde logo detectados pelos professores quando se iniciou o ano lectivo em Janeiro de 2002. Havia de facto aqueles que já não iam à escola porque os problemas disciplinares faziam deles "persona non grata" e aqueles que não iam à escola porque se sentiam desprotegidos num meio agressivo. 

Estes comportamentos estão sempre associados de contextos sociais, económicos e culturais desfavoráveis, fortemente implantados nesta população-alvo e que resultam do desencontro de interesses entre o que a Escola oferece e o que os alunos pretendem dela e muito, mas muito, da falta de interesse e de apoio construtivo dos encarregados de educação que desacreditam, desvalorizam e menosprezam a Escola aos olhos dos seus educandos.

Todos estes desajustamentos, quer pessoais quer sociais, reflectem-se inevitavelmente na qualidade do ensino e da aprendizagem, gerando atitudes de desmotivação que afectam a auto-estima e a realização pessoal e social dos alunos. 

O factor comum a estes alunos é basicamente: a baixa auto-estima, a descrença em relação à escola e claro o facto de serem provenientes de famílias disfuncionais. 


As grandes estratégias

As estratégias adoptadas, passaram em primeiro lugar pela sociabilização. Os slogans são:

  • A escola é um local de que os alunos devem gostar
  • Tudo na vida tem regras
  • Todos temos direitos mas também temos deveres
  • Nada é dado tudo é conquistado

A criação de um campo afectivo é fundamental para se poder exigir o saber estar no espaço aula e para a aprendizagem de novos conteúdos. 
E há outro aspecto que tem relativo impacto que é: nenhum professor está nesta turma por acaso e ao aceitarem estes alunos é porque se interessam por eles e esta ideia é muito batalhada: ALGUÉM GOSTA DE TI, ALGUÉM SE INTERESSA POR TI


Os Alunos os professores 

As atitudes dos professores são fundamentais para servir de modelo. 

É necessário existir uma grande coesão entre o grupo de professores e uma grande disponibilidade psicológica. 

As estratégias comuns são estabelecidas e reformuladas nas reuniões que se realizaram todas as semanas, porque quando não existem essas estratégias os alunos aproveitam de imediato essa lacuna para adoptar atitudes diversificadas em relação aos professores .
Deve-se evitar os conflitos mas quando eles inevitavelmente surgem é necessário não valorizar certas atitudes provocatórias, caso contrário entra-se no mesmo esquema do que na escola que é o chamar a atenção pela negativa, por isso s professores têm de se mostrar firmes dentro da flexibilidade. 

Aos alunos é estabelecida a meta do 2º ciclo e é em torno dessa meta que tudo gira: é-lhes pedido um esforço de moderação de atitudes mas não a tão longo prazo. Estes alunos vivem no imediatismo e no imprevisto ou no improviso. Mas isto, a meu ver já uma filosofia de vida que está enraizada nas famílias Tenho de falar no amanhã e não na próxima semana. O "Se te portas mal não vais a .... na próxima semana" não resulta porque até à próxima semana ainda muita coisa vai acontecer e o conceito de portar mal é muito relativo, muitíssimo subjectivo e é muito condicionado. Os professores aprenderam, assim, a lidar com o temperamento dos alunos e dar a necessária margem de tolerância.

A escolha das actividades

As actividades escolares foram minuciosamente planificadas e tiveram um carácter transdisciplinar. O Despacho que enquadra as turmas de currículos alternativos, Desp. 22/SEEI/96 de 19 de Junho prevê adaptações aos currículos das disciplinas de acordo com o perfil dos alunos a quem se destina . 

Estas alterações/adaptações curriculares visam:

  • Ajudar os alunos a desenvolverem capacidades pessoais e relacionais;
  • Desenvolver uma formação que corresponda aos seus interesses, motivações e expectativas;
  • Ajudar a organizar as suas experiências de vida fora da escola;
  • Adequar a formação a um tipo de alunos descrentes da sua própria capacidade de aprender e intervir;
  • Dar-lhes a conhecer instrumentos para compreenderem o mundo e a realidade;
    Promover a sua auto-estima;
  • Despoletar e/ou reforçar o seu sentido crítico, a solidariedade, e a responsabilidade;
  • Interiorizar atitudes e valores que possibilitem a sua formação integral enquanto cidadãos;

Alargar os seus horizontes culturais.

Neste sentido o currículo proposto para as turmas teve uma forte componente desportiva e de formação cívica.

A Avaliação

A avaliação dos alunos reveste-se de um carácter descritivo e qualitativo e dada a especificidade da população-alvo são tomados em consideração os seguintes aspectos: assiduidade, socialização, desempenho pessoal, participação bem como a auto-avaliação como processo de regulação das próprias dificuldades.